Dica do romance O delfim

o_delfimO delfim, de José Cardoso Pires (1968).  Editorial LeYa, 2010. 24ª edição. Publicações D. Quixote/1ª edição BIS.  Capa de Rui Belo/!designers.

José Cardoso Pires escreve uma história que se desenvolve durante uma tarde e uma noite na vila de Gafeira nos últimos anos do Estado Novo. A história é narrada em primeira pessoa por um escritor que chega à vila para a caçada anual e descobre que no ano que decorreu desde a sua visita anterior a vila fora sacudida por uma dupla tragédia na casa dos Palma Bravo, casal com a que o autor tinha amizade. A notícia da morte da dona e do criado impressiona ao escritor, que durante a tarde e a noite vai recolhendo lembranças da sua memória tentando averiguar a causa.

O autor descreve aos Palma Bravo, família de fidalgos sempre unida à história de Gafeira, da que Tomás Manuel é o último herdeiro. Engenheiro, endinheirado, condutor dum Jaguar, parece que o tem tudo… exceto filhos no seu matrimónio com Maria das Mercês. Na procura da origem da tragédia, o autor retrata à mulher sem filhos e isolada; ao marido infiel que vai frequentemente a Lisboa a se divertir; ao criado maneta e mestiço que recebe a atenção do marido como se fosse mesmo um filho. Descreve-se também a lagoa, território ambicionado pelos caçadores, governada desde antigo pela família Palma Bravo.

O autor emprega uma narrativa fluida, que alterna indistintamente o presente e os distintos passados, misturando as lembranças com as reflexões, e mesmo com cenas da sua imaginação. Mesmo narra una cena no capítulo XXVI-a e depois narra-a outra vez de maneira diferente no XXVI-b, e uma das duas intencionalmente falsificada para referir o fumo de enguias descrito nos capítulos XXIII e XXIV… que descrevem acontecimentos mais recentes, não mais antigos. Para além disso, escreve sobre a sua maneira de escrever, chegando a uma borda que é difícil julgar se é do pedantismo ou da genialidade. Como exemplo, cá vai uma citação do capítulo VII: Por isso, se pretender juntar aos meus apontamentos a menor ideia, a menor palavra, serei, como o abade da Monografia, narrador de tempos mortos. Falarei obrigatoriamente de ruínas, misturarei ditos e provérbios, pondo-os na boca do filho quando pertenciam ao pai ou ao tetravó, numa baralhada de espectros em rebelião. E se, para completar, invento uma legenda do tipo Ad Usum Delphini, pior. Mais me aproximo da toada dos doutores de água benta, à cabeça dos quais se coloca o sempre respeitado Dom Agostinho Saraiva, meu precursor nas memórias da Gafeira. Miserere mei.

A história tem também a sua dose de mensagem política própria da época do final do Estado Novo. Numa época na que persegue-se todo o que parece subversão, joga-se a mostrar que subversão pode ser qualquer coisa. Mas sobretudo, quando a lagoa escapa ao governo secular dos Palma Bravo, é um símbolo potente da perda dos privilégios da aristocracia.

Resumindo, O delfim é principalmente um preciso retrato da sociedade portuguesa na época do final do Estado Novo, uma sociedade num momento de transição.

Esta entrada foi publicada em Literatura, Romance. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s