Dica do romance Um crime na exposição

Um crime na exposição, de Francisco José Viegas.  ASA Editores II, Coleção ASA de bolso, 1998.

Capa do livro Um crime na exposição, de edições ASA Francisco José Viegas publica um novo romance policial protagonizado por Jaime Ramos. Sendo jornalista ademais de escritor, Viegas mistura a sua ficção com personagens e lugares reais; e estando escrita em 1998, naturalmente que a ação acontece na Exposição Internacional de Lisboa, com intervenções eventuais dos políticos. Uma série de crimes acontece em redor do Oceanário da Expo, e as vítimas estão misteriosamente relacionadas com o peixe. Jaime Ramos, com a ajuda de Isaltino de Jesus e Filipe Castanheira, investiga aos cientistas e funcionários da Expo envolvidos no assunto.

Viegas relata a história com peculiar desordem temporal, para o que não subministra guia nenhuma. O primeiro capítulo relata o descobrimento da terceira vítima; mais adiante relata-se o descobrimento da primeira. Com cada novo capítulo que começa o leitor fica desorientado, sem saber se acontece antes o depois do anterior; ás vezes sabe-se rapidamente, mas outras vezes finaliza o capítulo sem se saber qual é a sua posição dentro da ordem do romance. Viegas converte a trama policial num quebra-cabeças, acumulando personagens, lugares e objetos em grandes quantidades; lemos enumerações que enchem parágrafos inteiros. Seguir os cabos do mistério volve-se impossível a não ser convertendo a leitura num trabalho de tomar notas e desenhar esquemas, uma tarefa que além de esgotadora seria quase toda inútil pela grande quantidade de cabos soltos. Pode haver uma discussão entre um quirguiz e um tajique, e que nunca se saiba o seu porquê.

O estilo é muito literário, com qualidade, mas também espesso. Paga a pena citar o começo do capítulo 11: Às cinco e meia da manhã, as ruas de Xabregas despedem-se da escuridão. Por momentos, o silêncio é cortado por um comboio vazio cujo movimento desmaia junto do rio. Perto dali, o ruído de uma porta a abrir-se e, depois, a fechar-se. Passos no chão humedecido pela noite. É também um estilo introspetivo, que explora constantemente as lembranças e impressões das personagens. Também é peculiar o uso da repetição, repetindo frases de prosa como se fossem frases musicais. A narração não só é que salte para diante e para atrás; ás vezes renarram-se acontecimentos. O caso extremo é o final do capítulo 19, com os dois últimos parágrafos que são repetidos do final do capítulo 2.

Por ser a narração tão cronologicamente dispersa resulta impossível para os leitores seguir a trama de mistério, exceto talvez para os leitores habituais de Viegas. Há coisas que ficam sem aclarar, por exemplo o porquê da quarta morte. O interesse da obra não está tanto no mistério como está na qualidade da sua prosa. Resumindo, uma obra literária de qualidade escrita com uma trama policial como pretexto.

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